sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Homossexualidade - Parte II




Continuação do tópico anterior.

II.Heteronormatividade e Homofobia

O horror visível tem menos poder sobre a alma do que o horror imaginado.
William Shakespeare


Uma tendência cognitiva natural é a utilização de categorias sociais para organizar informações sobre outras pessoas (Hockenburry, 2003: 421). Como já visto, tais categorias podem incluir o gênero, a etnia ou a religião. De modo corriqueiro podem incluir inclusive o modo de vestir e falar de uma pessoa, passando por outras preferências como música ou um partido político. Um tipo específico de categoria social para todos esses casos seria o estereótipo, qual seja a atribuição de características a membros de um grupo ou classe (Fiske, 1998).

A atitude de estereotipar qualifica um dado grupo a partir de uma determinada característica. Ela pode tratar, por exemplo, da idade, ao afirmar que adolescentes são “irresponsáveis e impulsivos” e idosos “maduros e mal-humorados”. Porém, como se pode perceber, tais qualidades ou defeitos não têm correlação comprovável com os anos de vida de uma pessoa (Hockenburry, 2003: 421). E é justamente na meia verdade de um estereótipo que reside a grande dificuldade de mudá-los (Taylor&Porter, 1994).

Na média, adolescentes costumam ser mais impulsivos do que idosos, e estes mais sisudos e compenetrados do que aqueles. Porém, isto não se aplica para todos os casos. Em certas circunstâncias pode não se aplicar para a maioria dos casos. Daí surge o preconceito, a generalização e assunção prévia de uma ou mais características para um dado indivíduo, a diferenciação entre “nós” e “eles” (Hockenburry, 2003:422).

A criação mental dessas duas figuras, ingroups (ao qual pertencemos) e outgroups (ao qual não pertencemos), torna-se ainda mais forte no aspecto da sexualidade, em que se assume a heterossexualidade como normal, esperada, natural. A isto denominaremos heteronormatividade. Em outros termos, é a
“pressuposição da norma heterossexual como ordenadora da inteligibilidade sobre os corpos e as formas de relação sexual e afetiva” (Lionço&Diniz, 2009: 51).

A homofobia está umbilicalmente ligada à heteronormatividade, sendo esta uma forma daquela, não apenas por apresentar uma leitura desigual, uma hierarquização entre sexualidades, mas por ser a hostilidade conseqüência desse preconceito para com o outgroup (homossexuais). Como fenômeno complexo e variado, a homofobia pode ser expressa por meio de piadas ou o tratamento jocoso e injurioso contra gays (Eribon,2006: 27), em especial indivíduos afeminados, até motivar execuções [26] e extermínios [27].

A manifestação homofóbica busca, por variadas formas, inferiorizar a homossexualidade, tratada como comportamento desviante. Como outras formas de intolerância, é construída através de emoções (crenças, convicções, sentimentos), condutas (procedimentos, atos, leis) e dispositivos ideológicos (mitos, teorias, doutrinas, dogmas) (Borrillo, 2009: 28). Assim, a homofobia pode se manifestar pelo silêncio a respeito da diversidade sexual, por atitudes de ódio e desprezo puramente irracional ou por um conjunto de normas, valores e conclusões “científicas” bem elaboradas (Borrillo, 2009: 28).

Os homossexuais já foram e são tratados em diferentes circunstâncias como indivíduos com características psicológicas e comportamentais peculiares, como a incapacidade afetiva, a promiscuidade, afetação na manifestação corporal e um comportamento muito sexualizado, por exemplo. Percebe-se que “por meio de uma retórica moralizadora ou de uma linguagem especializada, a lógica discriminatória funciona conforme uma dialética de oposição entre nós-civilizados e eles-selvagens” (Borrillo, 2009: 30).

Os resultados de todo esse construto de discriminação e rebaixamento dos homossexuais pode provocar distúrbios irremediáveis nestes, a começar por um forte sentimento de auto-rejeição, culpa e identidade confusa. Para muitos homossexuais, o enfrentamento de sua orientação sexual pode chegar a níveis tais que ultrapassem o isolamento e a depressão, atingindo a atitude extrema do suicídio (Eribon,2008: prefácio). Ao retratar os primeiros sentimentos conscientes de sua orientação sexual, Andrew Sullivan (1996: 17) utiliza a seguinte representação:

Era como entrar num avião pela primeira vez, ficar eufórico com a decolagem, olhar maravilhado pela janela, ver as nuvens flutuarem lá embaixo, e perceber de repente que vocês está no vôo errado, indo para um destino apavorante, rodeado de pessoas que interiormente deixam você horrorizado. E não há como sair. Você se assusta, é invadido pelo pânico. Você é um deles.

É importante também notar que a homofobia atinge os homens heterossexuais, na medida em que sobre estes também exerce uma forma de violência, qual seja a de adequá-los a um tipo de comportamento padrão e esperado: não estabelecer relações íntimas com outros homens, evitando manifestar sentimentos mais íntimos entre seus pares; ter posturas necessariamente assertivas, por vezes violentas, reafirmando seu papel de macho, e, dentre outras circunstâncias, não tolerar homossexuais, pois são traidores da virilidade, do papel superior natural de um homem na sociedade (Borrillo, 2009: 35).

A ordem heterossexista (Borrillo, 2009: 26), como não-aceitação do princípio da igualdade e liberdade, ameaça os próprios fundamentos da democracia, favorecendo a hostilidade ao outro e promovendo a desigualdade entre gêneros. Viola, através da homofobia, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (Minillo&Viana Júnior, 2008: 144-145). As palavras injuriosas, os insultos promovidos contra os homossexuais relembram e reafirmam a todo o momento que há um padrão, uma hierarquia vigente, uma
regra de conduta e preferência sexual a ser seguida. Àqueles que não o fazem estão reservados os guetos, a subcultura, o anonimato, a discrição imposta ou, em termos mais claros, a uma vida dupla (Sullivan, 1996:104).

Para Daniel Borrillo (2009: 43), o primeiro passo pedagógico consiste em “questionar essa ordem heterossexista e tornar evidente que a hierarquia de sexualidades é tão insustentável quanto a de raças ou de sexos”.

26 Para mais informações acessar http://www.washingtonpost.com/wpdyn/content/article/2006/07/19/AR2006071902061.html
Acessado em 20 de dezembro de 2009.
27 Para mais informações acessar http://www.holocaustmahnmal.de/en/homosexualmemorial Acessado em 20 de dezembro de2009.

2 comentários:

Bárbara disse...

Excelente o artigo! Parabéns! Leva as pessoas a refletirem mais e mais! Apesar de ser um assunto bastante explorado pela mídia acredito que estamos batendo de mais na mesma tecla, de rotular, classificar, entender porque a pessoa é ou se torna um homossexual, sendo que isso não é nem de longe o mais importante. O importante é auto-aceitação dessas pessoas, e a aceitação delas pela sociedade considerada "normal" seja lá o que isso signifique.

Anônimo disse...

Um bom texto que faz reflexão de como é necessário conhecer sua própria natureza. Buscando entendimento na diversidade que faz o ser - humano.

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