segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Pela liberdade de escolha (ou O porquê do trote voluntário ser essencial)

Há alguns dias, neste mesmo Blog, foi veiculado um comentário referente ao acidente ocorrido com um calouro de Engenharia de Redes. Embora classificado pelo próprio estudante lesionado como um “acidente”, o trote seria, alguns argumentam, uma prova definitiva de que estes seriam tão somente momentos de barbárie contra indefesos calouros que se sentiriam moralmente coagidos a participar dos ritos de violência, sob a pena do ostracismo social universitário.

Pretendo tecer alguns argumentos para indicar que tal discurso não passa de soma de mito, hipérbole, preconceito e ignorância. Inicialmente, necessário é assinalar que rituais são muito importantes na vida humana. Cada experiência inédita em nossas vidas é uma pequena conquista que em geral fica marcada na memória, em graus distintos de importância. O primeiro beijo; a primeira namorada; a primeira vez que você viu seu time ser campeão; viagens e reconhecimentos de sucesso, dentre outras situações, são experiências deste tipo. Aquelas mais tradicionais (e mais importantes), acabam por serem envoltas por expectativas e rituais que consumam essa realização. Casamento, formatura do Ensino Médio e o ingresso na Universidade são marcados pela existência dessas práticas tradicionais.

O ingresso em uma Universidade Federal de ponta, hoje, é precedido por um esforço incomensurável de horas de preparação com vistas a um único objetivo. Muitas vezes sacrifica-se a vida social, o namoro e o lazer somente para conseguir alcançar a tão sonhada aprovação no vestibular. Chegado o dia da aprovação, as expectativas transformam-se em ondas de júbilo e êxtase – uma felicidade que só quem já passou pode entender. O ingresso na Universidade é marcado não somente pela sensação de sucesso, como também pela ideia de abandono da infância e ingresso na vida adulta (ou quase), com (novas) expectativas referentes a experiências que alguém só pode vivenciar no ambiente universitário.

Parece evidente, portanto, que a aprovação na UnB é um dos momentos mais importantes na vida de qualquer jovem – pelo que significa em absoluto, e pelas expectativas que enseja. De tal sorte, não é de se estranhar que os calouros queiram viver intensamente cada momento do sem-número de ineditismos que o cercam nesse momento. Nesse sentido, o trote é, portanto, um rito de celebração, um êxtase coletivo de júbilo e a garantia de que esses momentos ficarão para sempre na memória dos calouros.

Não tenho dúvidas em afirmar que a esmagadora maioria dos calouros (e me incluo nesse grupo, pois era como sentia-me quando de meu primeiro semestre) espera ansiosamente pelo trote! A imagem da sujeira das tintas, do passeio desconfortável pela então desconhecida UnB, da provocação gratuita a cursos “rivais” (no meu caso: “Eu faço REL, e sou viado; mas todo POL é REL frustrado!”) e a capacidade de rir de si mesmo, dos colegas e do ridículo da situação é inesquecível – e uma verdadeira lição de vida.

Parece-me óbvio que os veteranos podem facilitar a vida dos calouros e devem tomar algumas atitudes essenciais. Podem avisar o dia do trote, para que os calouros tragam roupas velhas para participar da sujeira. O voluntarismo, naturalmente, é imperativo. Não consigo aceitar o argumento de haver “coação moral implícita” evidenciada pela “exclusão social” dos ausentes. Minha experiência mostra-me que capacidade de socialização é algo muito caro a cada pessoa e que, assim como a participação no trote não é garantia de popularidade, a ausência do trote não significa ostracismo. Conheço gente que não participou do trote exerceu liderança em seus cursos – ou seja, isso é mais percepção que realidade.

Até entendo que alguns calouros possam acreditar nisso – assim como acreditam, também, que se você pegar qualquer matéria fora do fluxo de seu curso o “sistema” vai, de algum modo, marcá-lo para sempre e você nunca mais conseguirá qualquer matéria no MatriculaWeb! A mudança dessas percepções é também parte da vivência universitária e do amadurecimento inerente à passagem dos estudantes na UnB!

Você, formando, pode até achar trote uma coisa idiota. Para a maioria dos calouros, entretanto, é um ritual/marco/memória/momento muito importante em que se vai espontaneamente celebrar o sucesso e a alegria. Se você é contra trote, não participe. Não queira, contudo, impor sua visão de mundo sobre todos os outros. Não seja paternalista e autoritário: deixe com que outros escolham, por si só, se querem ou não participar dos ritos de iniciação Universitária.

Carlos Góes, 23, é estudante do 8º semestre de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Representante Discente no Conselho Universitário da UnB e membro fundador da Aliança pela Liberdade.

3 comentários:

Deco disse...

Apesar de concordar integralmente com os valores e princípios levantados pelo amigo, não posso concordar na romantização do trote.

Continuo a ver nos rostos dos calouros (40%,50%,60%?não sei) medo pelo trote que virá. Vejo desconforto, inquietude, mal-estar. Pq sabem que a vida não nos/os levou até ali para sermos/serem tratados como gado (nem de brincadeira!). A mim provocou tremendo mal-estar esperar pelo trote. Senti-me, como tantos outros colegas, constrangido a participar. Do contrário, sofreria um bullying, que mesmo que ocasional, não passaria nem perto de confortável. Qualquer bullying, mesmo que breve, não é boa lembrança para quem já tanto sofreu disso em uma fase da formação menos segura e altiva.

Com o passar dos semestres, o trote passa a ser não apenas um evento remoto, mas bobo, infantil. Por vezes, é até insignificante. O que fica na memória é a sensação de que não foi nada além de uma brincadeira tola para alimentar espíritos ainda mais tolos. Fica a sensação de que era, e só poderia ser, fruto de uma inquietação infantil de espíritos excitados pelo ambiente novo, pela necessidade de se afirmar perante os novos coleguinhas, reminiscência do pior espírito tribal do recreio do primário.

Infelizmente, crescemos. Acho simplesmente patético despender energia e tempo com essa forma de boas-vindas. Nesse sentido, o curso de Direito da UnB é exemplar na forma de diversão respeitosa e civilizada. Temos gincana, festa, disputas, gritos de guerra. Também com sujeira, suor e risadas, mas de uma forma em que NINGUÉM virá dizer que foi coagido ou desrespeitado. O medo e o constrangimento simplesmente não têm espaço na recepção que recebem os nossos calouros. A risada? Sim. O conforto? Sim. Sentir-se bem entre os pares? Sim.

Espero que a UnB um dia acorde para isso e que os e as estudantes, maduros e adultos que são, encontrem meios menos primitivos (e já disponíveis!) para saudar os seus sucessores. Que o medo e o desconforto só sejam tradição na terra dos boçais.

Noctua disse...

Grande texto góes. Essa questão, você bem sabe, gera bastante polêmica dentro da Aliança. Como você também sabe, eu não estou na lista daqueles que concordam com você.

Atendo-me exclusivamente ao caso do trote, não dá pra usar o argumento da liberdade individual quando se faz um trote no meio do ICC, onde uma multidão de outros indivíduos assistem aulas, onde os corredores (que são públicos) ficam imundos.

Nada contra o trote, a priori, apenas discordo do trote humilhante, violento e primitivo.

Não concordo com a política do: "os trotes são assim e participa quem quer". Se é pra falar em liberdade, que tal pensarmos na liberdade de poder ser integrado ao curso, sem ter como pré-requesito a humilhaçâo?

Enfim, esse é um debate que precisa ser feito e o Góes o abriu em grande estilo.

Saulo Maia.

Ítalo Candido de Oliveira disse...

Um texto bem lúcido.

Trote uma tradição tola?Fútil?

Quem liga, se existe pessoas aptas a participar e se divertir desde que respeite quem nao quer participar e se cuida da limpeza do ambiente não vejo problema.

É lamentavel ver meios de comunicação usar do sensacionalismo para vender e quem nao concorda com o trote se aproveitar da mídia tendenciosa

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