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quarta-feira, 4 de abril de 2012

CEB SOBRE A CALOURADA: Gritos versus argumentos



*Por Saulo Maia Said


Ganhar no grito: Ato de sobrepor à vontade de outro através da imposição da voz ou da insistência com as mesmas palavras. Essa situação é muito comum quando alguém não encontra meios eficazes de sustentar suas posições. Há o exemplo de várias espécies de animais que podem ganhar duelos gritando, sem nenhum embate corporal.


O último CEB, do dia 3 de abril de 2012, teve como ponto de pauta a Calourada 1º/2012. Os que têm acompanhado o site do DCE e a fanpage no Facebook já sabem que, com parcimônia e muita tranquilidade, a Gestão do DCE foi rebatendo ponto a ponto a rede de mentiras e desvarios espalhados por gente que costuma ter compromisso apenas com seus partidos e projetos de poder. Raras foram as críticas ponderadas e construtivas. Os que tinham por costume odiar, continuaram odiando. Alguns desses indivíduos, que ainda se sentem donos da universidade, que adoram falar em coletividade, mas que exigem sua carteirinha de filiado ao partido y ou ao movimento social x para lhe dar o direito de voz, achavam um absurdo uma festa aonde pensar no risco econômico fosse natural. (Informações sobree sobre a calourada, acesse: Calourada. Informações sobre a reunião de ontem, acesse: Secom e CEB).

Sempre as mesmas figurinhas, sempre as mesmas caras, dizem por aí que esse modelo de festa exclui os Centros Acadêmicos, pois já estava pré-formatado e os tornava apenas pontos de venda. Bom mesmo era o modelo anterior, no qual você só era incluído se entrasse com dinheiro, trabalho e, claro, muita dor de cabeça. Nada como socializar o patrimônio alheio e construir coletivamente um prejuízo (dos outros, já que você poderá sair com um ótimo know-how de festas e encher as bolsas de dinheiro em sua própria Calourada com um nome um pouquinho diferente). E isso tudo, prejuízo e frustração, é visto como um erro sobre o qual deve-se apenas refletir. Sabemos o que todos esses grupos com interesses diversos dos dos estudantes querem.

Todos querendo pilhar o projeto construído por iniciativa do DCE. Sim, o projeto está sendo desenvolvido com uma parceria de ABSOLUTO sucesso e jamais antes vista na história dessa Universidade, mas o que importa é detoná-lo, já que a idéia partiu do DCE e já que nada que venha dessa gestão pode ser bom. Preferem arruinar as contas do DCE e vê-lo em ruínas a tolerar qualquer sucesso da atual gestão, mesmo que muito maior seja o sucesso de todo o público (No momento em que esse texto foi postado, 41 CAs já confirmaram participação, número muito superior ao alcançadas nas últimas gestões).

Não percebem os que se ocupam apenas em destruir que o sucesso da atual gestão significa que a representação estudantil da UnB será deixada em um patamar mais elevado, venha quem vier depois? Não percebem que o profissionalismo, equilíbrio e responsabilidade, que são o norte da atual gestão, são valores a serem cultivados por todos em benefício de todos? Não, não percebem. Afinal, não perceberam até hoje que o resultado eleitoral da disputa para DCE foi um basta ao autoritarismo, intolerância, sectarismo e megalomania que caracterizava o velho modelo.

A atual gestão não age irresponsavelmente, nem aposta o patrimônio e o nome dos CAs (e dos/das estudantes por eles representados) no cassino das palavras de ordem e do discurso pré-formatado.

Responsabilidade e convicção são a marca da Aliança pela Liberdade desde o seu surgimento. Estamos convictos de que se deve ouvir antes de falar. Estamos convictos de que não é berrando que conseguimos as coisas e de que, se o outro lado não concordar, palavras de ordem e ofensas só irão convencer aos outros de que você não convenceu nem a você mesmo. Se seu argumento é tão bom, qual a necessidade de berrar ou de calar o outro? Não é assediando as pessoas para que mudem seu voto que se vence uma votação, ao menos não quando as regras são claras, previamente estabelecidas, aplicadas a todos igual e honestamente. Como talvez exista uma confusão sobre o significado dessas duas concepções, certas pessoas não conseguem conviver com o diferente.

Não, não representamos nem representaremos a desordem e a intolerância. A Aliança pela Liberdade continuará a portar-se com o mesmo espírito de serenidade, compreensão e responsabilidade para com aqueles que representamos, seja na execução profissional de uma festa, seja na condução civilizada de uma deliberação. Esteja este grupo à frente do DCE ou nos Conselhos Superiores da UnB, a tolerância e o respeito mútuo continuarão a ser a regra de conduta. Que os exemplos como o capturado pelo vídeo sejam apenas lapsos de memória de um movimento estudantil que já passou.

Recordemos que essas práticas autoritárias de tentar vencer no grito e nos empurrões, desprezando o Estado Democrático de Direito, não passa de mais do mesmo daqueles grupos minoritários que até hoje não aceitam a derrota das urnas:



*Saulo Maia Said é graduado em História pela UnB e mestrando em Ciência Política pelo IESP-UERJ, antigo IUPERJ. Membro da Aliança pela Liberdade desde 2009.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

QUANDO A CORAGEM VENCEU O MEDO - DISCURSO DE POSSE



Estimados membros da gestão cessante e das demais chapas,
Colegas da Universidade de Brasília,
Amigas e amigos presentes,
Boa tarde,

"Todas as coisas brilhantes e virtuosas derivam do trabalho de indivíduos que puderam criar em liberdade". Einstein

É, para nós, uma honra ter recebido um voto de confiança das e dos estudantes da Universidade de Brasília - que escolheram o projeto de uma UnB Livre como diretriz norteadora. Agradecemos a lisura do processo eleitoral, em especial à Comissão Eleitoral, nas pessoas do Fernando, Gustavo Cuia, Heitor, Lázaro, Leandro, Micha e Tatiane.

Somos mais do que rótulos, somos princípios. Queremos fazer uma UnB mais livre, lutaremos até o fim por isso.

Ao assumirmos o Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães, assumimos a responsabilidade de honrar seu nome. Honestino foi um estudante que, assim como nós, se indignou com os absurdos ao seu redor. Sob o manto repressor da ditadura militar, Honestino lutou e morreu por princípios maiores: por democracia, por igualdade de direitos, por li-ber-dade.

Enganaram-se aqueles que, com base em estereótipos, preconceito e ignorância, achavam que esse DCE passaria a se chamar DCE Luís Inácio Lula da Silva - ou DCE Fernando Henrique Cardoso. Aqui assumimos publicamente o compromisso de que o Diretório que carrega o nome Honestino Guimarães não esquecerá seu dever histórico: a luta por liberdade.

Nossa primeira responsabilidade é com aqueles que dependem de assistência estudantil para poder continuar seus estudos. Bolsa permanência, moradia estudantil e alimentação dos estudantes Grupo 1 e 2, inclusive por meio de RU em todos os campi, é um dever da Universidade. Mais de uma vez falamos que o mérito é um de nossos princípios. Portanto, nada mais justo que a Universidade recompense aqueles alunos que, sabemos, pelos diferentes pontos de partida, enfrentaram maiores dificuldades para conquistar o limitado acesso à Universidade pública. Essas lutas também são nossas.

Além disso, precisamos nos preocupar com o cotidiano universitário para permitir que a UnB cumpra sua missão, qual seja: “produzir, integrar e divulgar conhecimento, formando cidadãos comprometidos com a ética, a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável.” Um espírito de conservadorismo espúrio tem afastado a Universidade de sua missão. Somente com o rompimento de preconceitos ideológicos poderemos: aumentar os recursos para pesquisa e inovação; apoiar o aprendizado prático, a responsabilidade sócio-ambiental e o empreendedorismo através de empresas juniores e projetos de extensão; garantir a segurança e integridade física dos estudantes, professores e funcionários; e assegurar os devidos investimentos em infra-estrutura que combinem uma expansão universitária que não atropele o objetivo de excelência acadêmica.

Sabemos que a UnB tem uma vocação de pluralidade. O DCE representa os estudantes. Contudo, seria petulante e autoritário achar que as iniciativas estudantis se resumem àquilo que determina o DCE. Entendemos que o DCE deve apoiar as iniciativas estudantis. O DCE deve servir aos estudantes - e não dirigi-los.

Por este motivo, temos a plena convicção de que os diversos grupos, coletivos e indivíduos que compõem a comunidade acadêmica continuarão a levantar causas importantes em todas as esferas da realidade. Serão causas múltiplas, diversas, contraditórias. É da pluralidade, das diferenças, do debate que deriva a beleza da liberdade.

Alguns alegam que os 1280 votos que nos elegeram não seriam suficientes para garantir a representatividade da gestão. Concordamos que isso seja um problema. Mas, problema maior é o fato de que dos cerca de 33 mil estudantes da UnB, 27 mil escolheram não votar. Há, de fato, uma crise de representatividade no DCE. Mas essa crise de representatividade é do sistema representativo. Esse é nosso diagnóstico - e é por isso que apresentamos uma proposta de DCE parlamentarista: para que os que não se sentem representados tenham voz. Entregaremos nossos cargos no momento em que o Parlamentarismo for aprovado, pois nosso projeto nunca foi um projeto de poder, nosso projeto é um projeto de potência.

Assim, assumimos outro compromisso em nome da nova gestão do Diretório Central dos Estudantes. Não fecharemos a gestão a outros grupos. Nenhum sistema representativo é perfeito, mas os resultados serão muito melhores com respeito mútuo, diálogo, trabalho conjunto e tolerância.

Mesmo dentro dessa enorme pluralidade, há interesses comuns a todos os discentes da UnB. Todos querem que essa Universidade atinja plenamente o seu potencial. É uma questão inclusive de respeito à sociedade que a financia com tanta dificuldade. Mais de um bilhão de reais são investidos na UnB à cada ano. O mínimo que podemos fazer é nos esforçarmos para que ela esteja entre as melhores do mundo! Tão evidente quanto o potencial da UnB é que ele não se concretiza só com ideias. Delas precisa surgir uma postura de irresignação, de união, de trabalho conjunto de onde surgirá a transformação da UnB, do Distrito Federal e do Brasil.

Como afirmamos no começo, a nossa essência são os nossos princípios. Mas, se nossa essência são nossos princípios, nosso corpo é nosso trabalho. Que nos tomem por nossas ações e assim entendam nossos princípios, não o contrário.

O trabalho já começou e quem quiser ajudar é muito bem vindo, há muito a ser feito. Vai ser difícil, nós sabemos, mas vai compensar. A UnB tem tudo para estar no topo. Essa gestão trabalhará porque cada um de nós acredita nisso! Mesmo que alguns tentem impedir esse trabalho, continuaremos lutando. Em respeito aos nossos eleitores, em respeito a todos os alunos e alunas, à comunidade acadêmica e à sociedade brasileira. Continuaremos lutando por uma UnB livre, inclusiva, plural e de excelência.

''A posteridade poderá saber que não deixamos, pelo silêncio negligente, que as coisas se passassem como num sonho'' (Richard Hooker)

Viva a UnB e viva a liberdade! Obrigado!

Davi Brito,
Presidente da Aliança pela Liberdade.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O Estudante, o Movimento Estudantil e o papel da Aliança.


Um fato muito evidente para qualquer pessoa interessada no movimento estudantil da UnB é que a participação dos estudantes é muito pequena. Não só os quadros dos grupos estudantis são permanentemente esvaziados, como também o termo "movimento estudantil" e todas as ações ligadas a ele são vistas pejorativamente pela maior parte dos estudantes.

Baixo envolvimento. Prova disso são as Assembleias Gerais dos Estudantes, sempre extremamente distantes de atingirem o quórum mínimo de 03% dos alunos da UnB. Prova mais forte ainda são as eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE). Nas últimas eleições a UnB contava com aproximadamente 33.000 estudantes, contudo, segundo a comissão eleitoral de 2010, o total de votos foi inferior a 4.000, menos de 13% do total de alunos.

Por que tão poucos estudantes votam? Pode-se justificar a ausência dos estudantes nas Assembleias por estas serem demoradas, barulhentas, poucos confortáveis, em horários ruins, sempre atrasarem e inúmeros outros motivos, mas como justificar a ausência na hora de votar? O motivo que me parece fazer mais sentido é a falta de credibilidade dos grupos participantes. O famoso "não vou gastar meu tempo com isso porque vai continuar tudo a mesma merda".

Razão de ser da Aliança. Este é o principal motivo pelo qual o grupo Aliança pela Liberdade foi feito: criar uma alternativa aos grupos já existentes, atrelados a interesses externos à universidade e que não se preocupam com o estudante que quer estudar.

Pode parecer um pouco pretensioso dizer o motivo dos estudantes em geral não votarem, mas nossas especulações são confirmadas pelos resultados das eleições de 2010. Um grupo pequeno como era a Aliança com uma campanha extremamente breve e que gastou míseros R$140,00 frente a um enorme esforço humano e capital de alguns milhares de reais gastos por outras chapas (dinheiro vindo, em parte, de partidos políticos) conseguiu praticamente 18% dos votos para RDs. Para nós, esse resultado não pode representar outra coisa se não uma crença, ainda que tímida, na ideia de mudar o movimento estudantil.

Nosso público alvo são justamente os alunos que não se interessam pelo movimento estudantil porque acham que nada vai mudar, estes são os alunos que se preocupam com uma UnB melhor e não com interesses partidários diversos. Se esta dificuldade, somada a pequena campanha que fizemos, nos deu 18% dos votos, é porque algumas pessoas percebem que algo pode ser feito de modo diferente na política estudantil.

Você, estudante, é livre pra votar em quem quiser, isso se quiser votar. Mas, se for de seu interesse uma política estudantil que se preocupe com os estudantes, se você achar que outros ventos deveriam guiar o movimento estudantil, leia nossas propostas, você pode querer não votar em branco nessas eleições.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Educação no Campo


A Administração não tem a livre
disposição dos bens e interesses públicos, porque atua em nome de terceiros. Por essa
razão é que os bens públicos só podem ser alienados na forma em que a lei dispuser. Carvalho Filho.

Tendo lido no site da UnB uma chamada sobre uma convocação para os aprovados no vestibular de Educação no Campo, tive a memória provocada (http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=4104). Há tempos ouvimos rumores, mais ou menos fortes, mais ou menos próximos do mundo real, a respeito da criação de cursos ou cotas para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na UnB.
Não é apenas da cabeça criativa das pessoas que advêm tal desconfiança. Na Universidade Federal de Goiás (UFG) já havia experiência sobre a matéria (http://www.mst.org.br/node/7688), onde o MST desfrutava de seu curso de Direito Agrário.

Fui ao site do Cespe e decidi checar a natureza desse novo curso (http://www.cespe.unb.br/vestibular/educacaodocampo2009/). Lidos o edital e a prova aplicada aos vestibulandos, percebi que, até aqui, não há maiores objetos para preocupação. Veja bem, falo em “maiores”, não em “nenhum”. Explico.

Há no edital menção à participação do concorrente em movimentos sociais ou sindicais ligados ao campo. Dentre os muitos critérios/requisitos válidos para inscrever-se, esse é um deles. A verdade é que ser ligado ao MST não é dado bastante e suficiente para que o candidato seja habilitado a usufruir de dinheiro de pagadores de impostos na forma de um curso de graduação. A prova aplicada tinha conteúdo bem diversificado e de qualidade. Podemos então deixar de lado as preocupações? Acredito que não. Continuaremos a observar de perto a execução desse curso, seus professores, alunos selecionados e, especialmente, grade curricular. Uma universidade pública e de qualidade não pode direcionar os recursos escassos do contribuinte brasileiro para atender ao interesse de grupos fechados, obscuros, que atentam contra a democracia e o estado de direito. Que tipo de conteúdo seria veiculado em uma escola do MST? Google it! (MST, escolas, ensino)


segunda-feira, 7 de junho de 2010

A marcha contra a homofobia não pode se tornar a marcha da vingança

Texto de autoria de Henrique Fialho Barbosa.

No dia 27 de maio de 2010 houve, na UnB, uma marcha e um beijaço em favor de uma universidade sem homofobia. Esse acontecimento foi disparado como uma resposta aos trotes homofóbicos que são ubíquos na nossa universidade, principalmente nos cursos de engenharias.

O protesto veio em boa hora e foi muito bom para lembrar a todos como a questão da homofobia é séria na nossa sociedade – enquanto estávamos marchando, uma das participantes recebeu uma ligação anônima com uma ameaça de morte. Então isso quer dizer que nada daquilo ali era inventado ou sequer aumentado, mas sim uma realidade diuturna de medo e violência para os homossexuais.

A ideia do beijaço é boa e serve para combater aqueles que ainda acham que a homossexualidade deve ser combatida e, principalmente, para aqueles que acham que “tudo bem ser gay, o problema é mostrar isso, porque ofende quem tá vendo”. O beijaço tem no fundo uma consciência de que não é nem um pouco ofensivo demonstrar amor por quem se gosta, e que essa condição surgiu de processos sociais opressivos que marginalizavam a homossexualidade. Ora, está na hora de trazer à luz esses processos sociais e desconstruí-los de seu caráter de opressão. Somente demonstrando que os gays existem e que não querem nem vão se esconder por muito mais tempo é que se começa a mudar essa mentalidade.

Porém aconteceram algumas coisas durante essa marcha que me preocuparam profundamente. A maioria dessas coisas pode ser ilustrada com o episódio do CA de agronomia. Quando paramos a marcha na frente do CA de agronomia houve um novo beijaço e o protesto continuou. Porém algumas pessoas começaram a colar adesivos da campanha na placa do CA e começaram a querer colar uma bandeira do movimento homossexual na placa desse mesmo CA. As pessoas do curso não foram agressivas em relação à marcha nem relação ao beijaço, mas se opuseram fortemente à “desfiguração” de sua placa, e eu acho que acertadamente.

Porque que esse episódio demonstra um erro profundo na concepção de algumas pessoas em relação à luta contra a homofobia? Porque ele mostra que às vezes alguns estão dispostos a cruzar a linha do desrespeito em relação ao próximo. O CA de agronomia tinha todo o direito de manter a sua placa limpa – nenhuma das pessoas presentes na marcha tinha o direito de impor que outras pessoas lutassem, mesmo que passivamente, pelas suas próprias ideias. É errado ser homofóbico, mas não é errado não falar nada. É um direito. E, mesmo depois de protestos das pessoas de agronomia, os presentes na marcha continuaram colando adesivos e tentando colocar a bandeira, até que dois representantes do CA retiraram a placa de onde ela estava, e foram vaiados. Foram vaiados por que? Por quererem defender o seu direito? Uma moça de agronomia tentou falar o que achava no megafone e foi interrompida e ignorada.

Então quando interpelados sobre essa falta de respeito à liberdade do outro, muitos respondiam dizendo que “eles nos desrespeitam também”. Ora, a marcha contra a homofobia era uma marcha a favor da tolerância, do respeito e da liberdade ou era uma marcha a favor da vingança? Já que eles nos desrespeitam, temos o direito de fazer o mesmo? Obviamente a resposta é não. E é um não veemente – esse tipo de ação chega mesmo a produzir efeitos contrários naqueles que se sentem desrespeitados: raiva e ódio contra o movimento dos homossexuais. E é essa raiva e esse ódio que essas pessoas vão transmitir pra seus parentes e amigos, colocando assim mais combustível no ciclo de desrespeito e de intolerância da homofobia.

Outra questão importante pode ser ilustrada com outra história: havia uma moça pichando nas paredes e no chão casais homossexuais. A validade da pichação eu não quero discutir aqui, mas eu perguntei a ela: porque não pichar um casal heterossexual, depois de tantos homossexuais já pintados? Ela me respondeu dizendo que isso não era importante, porque os heterossexuais já tem respeito. Isso me causou angústia, porque na minha concepção aquela marcha era uma marcha a favor da liberdade sexual: Homo, bi ou hétero. E eu acho importante reiterar isso – que a marcha é a favor de TODAS as identidades sexuais, inclusive a heterossexual. Porque é isso que define, pelo menos para mim, o movimento da liberdade de expressão sexual. Sem isso as pessoas heterossexuais podem encarar o movimento como uma “ameaça”, e esse sentimento de ameaça, mais uma vez, coloca fogo na roda da intolerância. Justamente por estarmos requerendo direitos é que precisamos ser muito cuidadosos com o direito do próximo.

A conclusão a que quero chegar com esse longuíssimo texto, se alguém o leu inteiro, é a de que o revanchismo só pode levar a uma divisão ainda maior da sociedade entre grupos antagônicos. Se houve opressão no passado, e se há – com certeza há, e forte – não é oprimindo os outros que remediaremos isso. O único meio seguro e justo de apagar esse passado é construindo uma ponte ao “outro lado”, para que sejamos todos do mesmo lado. E não um muro.

*As ideias presentes no texto são de responsabilidade de seu autor.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O autoritarismo e a Autoridade, ou a licenciosidade e a Liberdade.


Nós últimos dias a UnB tornou-se palco das mais variadas formas de intolerância, autoritarismo, truculência e violência. O ambiente em que vivemos é o da mais completa licenciosidade, degeneração grosseira da liberdade. Quando a lei e as liberdades individuais viram palavras ao vento, a única esperança dos amantes da liberdade é que o bom-senso das pessoas compense o estado de licenciosidade. O problema é que o bom-senso, sufocado pelo radicalismo juvenil, foi uma das principais vítimas dos abusos verificados em nossa Universidade.

Reunião do CEPE é "implodida" por estudantes e votação do calendário foi adiada.
No último dia 13 de maio a reunião do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE), que votaria o calendário acadêmico, foi suspensa por força de um protesto levado a cabo por alguns poucos estudantes. A grande maioria deles é filiada a grupos políticos de ultra-esquerda, desde anarquistas até maoístas. Os manifestantes alegavam que os professores não poderiam abandonar a greve para não enfraquecer a luta dos servidores técnico-administrativos, que no momento permanecem sem a URP em seus contra-cheques.
Mesmo considerando válida a opinião destes estudantes (concordar ou discordar fica a cargo de cada um, mas respeitar é dever do homo democraticus), não podemos considerar legítimo o método de atuação de quem desrespeita as instituições da Universidade sempre que estas expressam opiniões distintas. (A expressão implosão foi usada por aqueles que interromperam a reunião do CEPE; não obstante, consideramos o termo inadequado tanto pela imprecisão como pela linguagem militaresca).
Imagine o que ocorreria com a política se todo grupo contrariado pelo resultado obtido dentro das regras do jogo se sentisse no direito de barrar violentamente o processo de tomada de decisões? Seria o caos, aliais, como já o vivemos, então digo: é o caos! Do mesmo modo que respeitamos as minorias em seu direito de expressar suas opiniões, em sua liberdade de associação e seu direito à oposição, as minorias também tem o dever de respeitar a pluralidade de opiniões e a legitimidade das instituições.
E o pior de tudo é que não é a primeira vez que as autoridades competentes da Universidade se omitem em seu papel de manter a ordem e a legalidade no ambiente acadêmico. Talvez confundam autonomia universitária com anarquia, que no momento mais parece um inferno hobbesiano.
Ora, se a violência e o desrespeito as instituições são métodos legítimos de reivindicação, então quem discorda da atitude daqueles que "implodiram" o CEPE deveriam ir até lá lutar, literalmente, por suas reivindicações? Não, jamais. Já avançamos demais em termos de civilidade para resolvermos nossos conflitos de forma violenta.

Assembléia dos estudantes votou a greve estudantil e táticas de atuação no CEPE.
Já no dia 18 de maio realizou-se no ceubinho (entrada do ICC ala norte) a Assembléia Geral dos Estudantes. O principal ponto de pauta seria a votação pela manutenção da greve estudantil. Levando-se em consideração o emprego completamente anacrônico e excludente da dita Democracia direta, não podemos nos surpreender com o nível das discussões e com o teor dos discursos de aspirantes a oradores.
Só o fato de se votar uma greve estudantil num momento em que milhares de estudantes já estão em sala de aula, mostra a distorção gravíssima entre a posição da Assembléia (que contava com menos de 200 pessoas) e a posição da grande massa de estudantes.
Não podemos culpar ninguém por não participar. Muitos possuem compromissos que os impedem de comparecer às Assembléias e outros até possuem tempo, mas falta-lhes a paciência para entulhar seus ouvidos com toda sorte de bobagens por horas a fio. A manutenção dessas instituições excludentes atualmente só servem para perpetuar o domínio de determinadas facções do movimento estudantil, notadamente dos estudantes profissionais.
Na oportunidade, os grupos que empreenderam a implosão do CEPE da semana anterior tiveram a pachorra de alegar que, se a atitude deles não foi votada na última assembléia estudantil, logo eles tinham o direito de acabar com a reunião daquele conselho universitário. Numa apropriação filosófica de discutível talento, trouxeram Kant para a discussão sustentando que esse tipo de decisão não poderia ser tomada a priori...
Immanuel Kant, que era um defensor do Estado de Direito, a esta altura deve estar se debatendo em seu túmulo... É Kant, já freqüentaste mentes mais cultas!
Por fim, para o escândalo daqueles que pensavam já ter visto de tudo em termos de movimento estudantil, surge a seguinte proposta: só implodimos o CEPE novamente se eles aprovarem o calendário. Ninguém melhor que a estimada amiga e colega de Curso Joana Ricarte caracterizou a mentalidade dessa gente:

"Comportam-se como a criança que perde o jogo e leva a bola pra casa".

Foi com essa bela demonstração de presença de espírito que ela concluiu seu discurso contra aquela proposta ao mesmo tempo indecorosa e indecente.
Que fique claro que não compete aos estudantes da UnB votar pela interrupção de nenhuma reunião de qualquer conselho da UnB. Não há respaldo jurídico para tal.
Ouvimos ainda outros sapientíssimos estudantes fazerem a apologia da ação direta (leia-se invasões, piquetes e demais medidas arbitrárias do gênero), alegando que sem estes métodos os servidores não ganharão nada. Disseram ainda que não devemos depositar nenhuma esperança nas "instituições burguesas" para garantir direitos.
Entendem por que é racional se ausentar das assembléias dos estudantes?
Aos partidários da ação direta, eu gostaria de recordar que os professores não foram nem de longe tão radicais quanto os servidores e, mesmo assim, garantiram suas reivindicações na Justiça. Já parte do movimento grevista apelou para métodos mais radicais: fecharam os acessos da reitoria, queimaram pneus (o que interditou temporariamente vários acessos da Universidade), porém descuidaram-se das medidas jurídicas cabíveis. Pressionaram o TRF a julgar logo a liminar que garantia a URP e, por incrível que pareça, foram surpreendidos quando souberam que a ação nem mesmo os representava.
Não podemos individualizar culpas pois o fenômeno é complexo, mas é inegável que se hoje nenhum técnico administrativo está recebendo a URP é em grande parte por causa do seu próprio sindicato. Quando o momento é tumultuado, devemos escolher a luz como nossa companheira, posto que boas intenções não bastam para atingir resultados satisfatórios.
E, para fechar, gostaríamos de manifestar meu descontentamento com a intolerância que se observa em nossa universidade. Gostaria de me solidarizar com a professora Enilde Faustich, chefe do Departamento de Letras (LIP). Reivindicar é um direito e se expressar também, mas estes direitos não anulam nem prescrevem o direito de outras pessoas. A professora foi ferida, antes de tudo, em sua dignidade como mulher, como pesquisadora, como professora e como cidadã.
Passamos por tantas melhorias nos últimos anos em nossa Universidade (sobretudo em termos de infra-estrutura) e, quando assisto a fatos lamentáveis como os descritos, pergunto-me sem a pretensão de responder: quando, finalmente, esposaremos a LIBERDADE na UnB?

Este texto é de autoria de Saulo Said. O autor é o único responsável pelas opiniões por ele emitidas.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

COVARDIA na UnB

Publicamos notícia veiculada pelo blog do Professor Marcelos Hermes (http://cienciabrasil.blogspot.com/):


Prezados,
Reproduzo abaixo, indignado, mensagem que há pouco recebi numa lista de discussão, escrita pela Profa. Enilde Faulstich, Chefe do LIP (Instituto de Letras, UnB).

Completa bem o clima de barbárie que vivemos na UnB: desrespeito às pessoas, ao seu trabalho e às instâncias institucionais internas e externas. Vide as seguidas violências perpetradas para impedir o funcionamento dos nossos órgãos colegiados, nos últimos tempos!

Não ouso afirmar que já chegamos ao fundo do poço. Falta assistirmos agressões físicas. Afinal, que diferença existe entre pessoas que fizeram isso com a Profa mencionada e as
pessoas que recentemente agrediram um morador na Asa Sul, porque teve a coragem de pedir silêncio num posto de gasolina?

Até quando? O que deve ser feito para que isto tenha um fim? Quem deve ser responsável pela condução de ações que levem a este fim?

Prof. Jairo Eduardo Borges-Andrade
http://lattes.cnpq.br/3622720842959126
PG Psic. Social, Trabalho e Organizações, UnB

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Prezados Professores,

Durante muito tempo, usei como lema o slogan "Orgulho de ser UnB". Hoje, duvido desse orgulho.

Acreditei que deveria retornar à sala de aula com o término da greve de docentes. Na segunda-feira, na terça-feira e na quarta-feira, ministrei minhas aulas; salas cheias; alunos interessados; conteúdo muito bom.
.
Mas hoje, 13 de maio, fui assaltada na sala de aula no Pavilhão Anísio Teixeira com apitos, buzinas, gritos, invasão de sala de aula por senhores e senhoras com bandeiras do Sintfub.

Esclareço que, por sorte, já havia finalizado a aula, cujo tema era a representação simbólica da formação do Império Romano na formação das línguas românicas e a invasão dos bárbaros na antiga Europa. Discutimos muito o assunto, ilustrado por mapas, slides em datashow e livros da professora, com o fito de estimular os jovens da graduação a adquirirem conhecimentos linguístico, social e ético, desde séculos antes de Cristo até o momento atual.

Que ironia, eu havia falado de invasão... antes de Cristo! A sala estava repleta, pois são muitos os alunos. Quando dizia as últimas palavras - exatamente às 11:50 - tive o fim da aula interrompido pelo grande grupo que apitava na porta da sala. Não me intimidei, afinal a aula estava finalizada e faltavam algumas últimas notícias, além de passar a lista de chamada para ser assinada pelos alunos.

Sem querer saber o que se fazia naquela hora e naquela sala, os funcionários entraram na sala, pois eu inisistia em manter a porta encostada para recolher meu notebook, o datashow e proteger a fiação que fica no chão. Um grupo entrou na sala com irritantes apitos e buzinas e sequer procurou dialogar.

E o PIOR foi eu ser XINGADA por pessoas que, ou são contemporâneas a mim pelo tempo de serviço e pela idade, ou nem haviam nascido, quando eu já era professora da UnB. Pra onde foi meu ORGULHO? Fui tomada por enorme vergonha pelo xingamento.

Minha dúvida é até que ponto a greve de docentes acabou e até que ponto a greve de funcionários me impedem de ministrar aulas. Quero uma resposta, senão não entrarei mais em sala de aula até que se resolva a precária situação a que estamos expostos.

Como docente, respeitei a greve dos docentes. Como professora, retornei para a sala de aula porque os alunos estão lá, querendo aula. Como chefe do Departamento, não somente respeitei a greve dos docentes, como abri espaços para as discussões circunstanciadas, com direito à palavra de funcionários, de alunos e de professores. Como chefe de Departamento, respeito a greve dos funcionários e procuro conversar com os servidores do LIP sobre os encaminhamentos que estão sendo feitos pelo sindicato.

Agora, se sou PROFESSORA e estou em sala de aula, o que autoriza funcionários a entrarem em meu espaço e a me xingarem porque estou trabalhando? Quanta humilhação sofre hoje um professor DA e NA Universidade de Brasília!

Pra que um docente faz mestrado, doutorado, pós-doutorado, publica com Qualis, obedece às exigências da CAPES, orienta teses, é pontual em sala de aula, pensa que pode transformar o mundo ao ensinar seriamente conteúdos de suas disciplinas, relaciona-se com ética com a comunidade universitária, para em 5 minutos ser acaçapado por quem não deveria estar ali a humilhar um(a) professor(a)? Peço resposta da administração, quero segurança em sala de aula.

"Orgulho de ser UnB" deveria ser perene, mas como tudo na vida passa.

Neste momento, estou lutando para diminuir minha pressão arterial que tem oscilado e que me tem levado a controle de cardiologista.Cheguei à minha casa com pressão 18 X 10 e batida cardíaca 97 por minuto. Vale a pena isso, em nome de que URP?

E então, uma universidade que, na atualidade, me leva à precariedade da saúde, merece meu orgulho? Não! Bastou!

Quero uma resposta, pois me sinto expulsa do ambiente que eu julguei fazer parte da minha história.

Atenciosamente.
Profa. Enilde Faulstich
Chefe do LIP - IL
.

sábado, 15 de maio de 2010

Notícia do DCE da UFRGS

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TERRORISMO CONTRA O DCE DA UFRGS

sexta-feira, 14/05/10

O Diretório Central dos Estudantes da UFRGS foi vítima de ato criminoso, quando na madrugada desta quarta-feira seu hall de entrada foi incendiado. A ação, assumida por um grupo intitulado ‘Comando de Caça aos Reacionários’, demonstra o desprezo de determinados grupos radicais pela livre escolha dos estudantes da Universidade, pelo patrimônio público e Estado Democrático de Direito.

O crime acontece no momento em que o DCE está se repaginando, passando por reformas para melhor receber e atender aqueles que são o motivo de sua existência: os universitários. Na condição de diretor de Relações Institucionais da entidade, estive pessoalmente empenhado, juntamente com outros membros da gestão, na arrecadação de recursos financeiros junto à iniciativa privada para a realização das obras de reforma na sede que nos foi entregue destruída. Tais obras estão em andamento, mas com esta ação terrorista acabaram sofrendo severo revés.

Esta ação tem o evidente caráter de ter sido cometida por quem desrespeita a democracia, a pluralidade e as leis de forma geral. Além do vandalismo, o que está em discussão é algo maior: a liberdade de pensamento dentro da Universidade.

Mais do que isso, criminosos que cometeram este delito devem ser tratados como tais e merecem repúdio incondicional da sociedade. O claro dano ao patrimônio público já está sendo investigado pela Polícia Federal, que tem jurisdição nas ações dentro da UFRGS, e uma vez identificados os responsáveis, esperamos a respectiva e dura punição.

A proposta, porém, de devolver o DCE da UFRGS para os estudantes continuará, mais do que nunca, sendo posta em prática, procurando oferecer aos alunos um lugar agradável e recuperado. Um espaço onde possam ser bem recebidos, um ambiente em que suas reivindicações sejam atendidas, independentemente de preferências políticas ou ideológicas.

Somos adeptos da democracia, da liberdade pensamento e de iniciativa. Em nossa visão de mundo os adversários são vencidos pela discussão e persuasão; não pela força, armas ou terror.

—

Veja o vídeo sobre o ocorrido

Veja notícia da ZH sobre o caso

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Manifestação, parte final.


Como prometido, e para encerrar o assunto, segue o que vi:

1-Cheguei na manifestação de quarta passada por volta de 11:20h. Até o momento da minha chegada a manifestação se mantinha ordeira, com os muito éticos do PT/CUT e amigos no carro de som bradando contra o GDF. Não apenas foi difícil ouvir todo o cinismo de quem silenciou diante de ou defendeu um dos mais escandalosos casos de corrupção de nossa história: mensalão. Difícil também foi engolir que a gênese de todo o mal, de toda corrupção, era o capitalismo. Que não poderíamos esquecer que o governo que estava aí tinha um "projeto neoliberal" e mais cobras e lagartos. Enfim, é elevado o custo moral de participação em um evento em que você fica sob a bandeira dessa gente (tanto é que alguns órgãos de imprensa veicularam que a manifestação era organizada pela CUT).

Porém, mais do que difícil, verdadeiramente revoltante, foi ver uma faixa do PSOL ser tomada das mãos de alguns manifestantes e ser destruída por Ton-Ton MaCUTs. O que estava escrito? "Fora todos os mensalões. Fora mensalão do Lula e mensalão do Arruda." A indignação é tão seletiva quanto a tolerância.

2-O erro começou quando alguns manifestantes, em sua maioria estudantes, terminaram de tomar as pistas do Eixo Monumental no sentido CN-Rodoferroviária e bloquearam todo o trânsito, extrapolando o direito de manifestação e agredindo o direito de ir e vir dos motoristas. Ali mesmo a PM deveria ter feito algo, impedindo, sem brutalidade, que os estudantes tomassem todo o eixo.

3-A cavalaria se aproximou. Acredito ter ocorrido algum diálogo entre o comando e manifestantes e estes começaram a se retirar aos poucos quando, de repente, correram p/ o sentido oposto do Eixo, impedindo agora o tráfego na frente do TJDFT. A PM veio atrás, lentamente, alguns minutos depois.

4-Após um tempo impedindo o trânsito, creio que uns 20 min, ocorreu o primeiro ato por parte da PM que qualifico como descabido e impensado. Enquanto os manifestantes se retiravam p/ a grama, liberando o trânsito, a cavalaria passou a toda pela pista, quase ferindo algumas pessoas. A revolta e as vaias vieram como resposta. A cavalaria, novamente, passa cortando o eixo a toda, e quase acerta alguns manifestantes. Alguns objetos leves foram atirados contra a cavalaria em resposta, mas era coisa insignificante, como tampa de isopor. Aqui começa o descontrole.

5-Os manifestantes ficam revoltados e reocupam as faixas na frente do TJDFT. O BOPE é chamado e chega um tremendo aparato (dezenas de homens com balas de borracha, cães, Caveirão com jato d'água...). Como minha hora já chegava e não gosto de bala perdida, nem que seja de borracha, comecei a me retirar no sentido do Nilson Nelson. Foi aí que, quando já estava no estacionamento do Ginásio vi os manifestantes retornarem pro outro lado do Eixo, andando entre os carros (o tráfico estava pesado) e distribuindo adesivos. Ao que consta, iriam para a Rodoviária.

6-Foi então que a PM barbarizou com bombas de gás, balas de borracha e tocou os manifestantes de volta pra altura do Buriti na porrada. As cenas de descontrole estão bem documentadas.

7-Algo diferente poderia ter sido feito pela PM? E pelos manifestantes? Claro! Os dois lados erraram, mas me parece muito menos aceitável o erro da PM, que deveria ser mais profissional, mais bem preparada e que, claro, contava com poder de força, muito, muito superior.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Truculência, Burrice e Despreparo - Parte 2


O post que segue é um comentário feito po Saulo Said no post anterior. Tomei a liberdade de reproduzi-lo pela coerência e boa argumentação.

Existem alguns pontos sobre a onda de protestos contra o governador Arruda que precisam ser entendidos mais detalhadamente.


Em primeiro lugar considero que a situação é gravíssima e que são fortes as evidências de corrupção praticadas pelo governador e pelo alto escalão do executivo e por membros do legislativo.


Porém, será só contra corrupção que os manifestastes lutam? A cúpula do DCE da UnB que, como todos sabem, é petista, não se mobilizou com o mesmo ímpeto contra o escândalo do mensalão do PT. A corrupção é de fato um dos grandes desafios que a democracia brasileira precisa superar. Mas combater a corrupção é combatê-la onde quer que ela se manifeste e não apenas quando os envolvidos são de um partido opositor.


O mensalão do PT foi muito mais grave , pois envolvia a cúpula do partido em escândalos de financiamento ilícito de campanha, fraude em licitações com a SMP&B e a compra de parlamentares de oposição. Isso sem falar que o sr. Duda Mendonça, "marketeiro" da campanha de Lula recebeu dinheiro de caixa 2.


Mudando o objeto de análise (mas não de assunto), gostaria de tratar da crença messiânica dos manifestastes. Gritar "Fora Arruda" não resolve o problema e nem ajuda a resolver. Todos estão apressados em ver o ex-democratas fora do governo, mas o sadio funcionamento do processo democrático pressupõe apuração, acusação, defesa e julgamento.


Se tudo isso demora e os manifestastes não suportam esperar, isso mostra que eles estão comprometidos com uma democracia totalitária, onde não existe lei, liberdade ou Estado de Direito. Pensam que a simples vontade deve derrubar quaisquer procedimentos jurídicos (considerados lentos e burocráticos), esquecendo-se de que o mundo já experimentou os resultados desastrosos desse tipo de Democracia (vide totalitarismo).


A evidência de que o Governador, secretários e parlamentares infringiram a lei não dá aos manifestastes o direito de fazerem o mesmo. Trancar uma avenida é uma decisão séria que não cabe a um grupo de 1.600 pessoas. Protestar é um direito, mas não é um direito soberano que esmaga quaisquer outros direitos de outras pessoas.


E, para entrar no último assunto, gostaria de lembrar que a forma como os atuais protestos vem sendo conduzidos apenas sangram a imagem política de Arruda (o que é conveniente a certos partidos), muito embora pouco contribua para a sua saída. Um movimento contra a corrupção deveria encontrar alternativas para sanar o grave impasse político instalado no momento. Caberá a uma câmara legislativa composta por envolvidos no escândalo a tarefa de julgar a perda do mandato dos seus, do governador e do vice-governador. O que fazer diante do problema?


Usar a coerção para intimidação dos parlamentares, ou ocupar a Câmara legislativa não são soluções. A sociedade brasileira não é muito receptiva a esse tipo de radicalismo, ainda que concordem com a demanda. Caso os manifestastes encontrem uma solução jurídica para o problema, que tenha respaldo na legislação brasileira, ai sim conseguiríamos algum resultado. De posse de uma solução jurídica factível, poderíamos nos organizar para levá-la adiante.


Até o momento, o movimento "Fora Arruda" é apenas a manifestação de repúdio, cujos métodos de ação têm sem mostrada tão pouco republicanos quanto os dos envolvidos no escândalo de corrupção.


A polícia, por sua vez, foi truculenta , mas isso não significa que os manifestastes estejam certos. Ambos se excederam no gozo de suas prerrogativas. E se bem conheço os alunos da UnB, não duvido que muitos tenham insultado os policiais ou tenham se mantido parados diante do avanço da polícia. O sonho de ser um mártir, um perseguido, um oprimido é motivo de orgulho para muitos de nossos colegas. Confere a eles um sentido de viver, uma certa importância política e a glória pela "luta".

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Truculência, Burrice e Despreparo - Parte 1


A Aliança pela Liberdade decidiu em sua última reunião da Assembléia de Assuntos Gerais, instância máxima de nossa organização, manter-se fiel à idéia de não atuar ou manifestar-se em assuntos externos ao ambiente da Universidade de Brasília. Mesmo reconhecendo os impactos da crise política do Distrito Federal sobre assuntos de interesse de nossa universidade, achamos por bem não nos manifestarmos enquanto grupo estudantil da UnB a respeito do assunto.


Contudo, enfatizamos nossa preocupação e atuação enquanto indivíduos politicamente atuantes a respeito dos escândalos envolvendo membros dos três poderes no DF. É em consonância com a liberdade de manifestação e expressão assegurada por nossos princípios e em solidariedade aos colegas de UnB que sofreram flagrante violência por parte da Polícia Militar do Distrito Federal que reproduzo depoimento de uma colega e, posteriormente, manifesto minhas impressões a respeito da experiência que vivi na data de hoje.


André Maia

Presidente da Aliança pela Liberdade.


Depoimento de Jaciane Milanezi, estudante da UnB:

"Eu e uma colega da UNB seguimos às 10h para a manifestação contra a corrupção em frente ao Buriti. Vale sublinhar que foi uma manifestação organizada por todos e para todos: partidos, sindicatos, estudantes e cidadãos. Para todos que não toleram corrupção, que não toleram "quem rouba, mas faz"; para quem sabe que política é a discussão e a ação ao que é relacionado à sociedade e não ao interesse próprio.
Até às 11h30 estávamos todos na Praça do Buriti ouvindo discursos. Depois, com o objetivo de mostrar mesmo à população que é necessário se manifestar de alguma forma contra a corrupção, paramos o trânsito no sentido Buriti-JK.
Nesse momento, cartazes eram levantados, apitos eram ouvidos, coros eram feitos. Ou seja: o que se entende por uma manifestação política. A polícia, que cercava todo o Palácio do Buriti [sede do governo local], começou a redirecionar o trânsito. Até então, tudo tranquilo: cidadãos se manifestando e o trânsito sendo reorganizado. Vale mencionar, que os carros passavam buzinando e se manifestando contra a corrupção também.
Pouquíssimo tempo depois, tive a impressão de que a manifestão política foi confundida com banditismo, pois logo a Cavalaria da polícia se posicionou em torno da gente. Pergunta: pra quê isso contra uma manifestão política? Será que nosso governador corrupto deu ordem para dispersar a manifestão contra ele? O que fizemos? Apenas sentamos no chão e continuamos com nossos coros e cartazes.
Seguimos para o outro lado, sentido TJDFT-Parque. O que fizemos ao parar ao trânsito: coros, cartazes, apitasso. E os carros parados? Começaram a buzinar em protesto também. Logo a polícia redirecionou o trânsito e os carros puderam seguir. Só que a Cavalaria seguiu para o outro lado também e começou a amedrontar os manifestantes. Correram duas vezes com seus cavalos e seus cacetetes para quê?
Dispersar uma manifestação política que àquela altura não atrapalhava nem mais o trânsito?
Mas não bastava a Cavalaria. Precisava do BOPE. Alguns estudantes foram conversar com os policiais e esses solicitaram que deixássemos a pista em 10 minutos. Em que época se manifestar politicamente tem hora marcada pela Polícia? Decidimos sair e seguir em direção à Rodoviária pelo gramado. E o que fez o BOPE? Continuou cercando a todos, evitando que seguíssemos para a Rodoviária.
Não houve opção a não ser irmos para a pista, novamente no sentido Buriti-JK. Não chegamos a parar os carros. Ficamos circulando entre eles com os cartazes e os coros. Muitos carros diminuíram a velocidade, buzinaram, pegaram adesivos, etc.
Foi nesse momento que BOPE e a Cavalaria pararam o trânsito e, acho eu, acreditando estarem lidando com bandidos, começaram a vir para cima dos manifestantes com bombas e todo o arsenal. Um manifestante foi pego, machucado, levado para o gramado.
Alguns cinegrafistas da imprensa estavam bem próximos filmando toda essa cena e os policiais do BOPE começaram a bater neles e lançar bombas para que não conseguissem mais filmar. Eu estava atônita: o Estado, com o uso da força, impedindo a imprensa de narrar os fatos ao resto da sociedade! Que democracia é esta?
A relação entre a quantidade de policiais e a quantidade de manifestantes era tão desproporcional que eu me indagava o tempo todo: que instituições democráticas são essas que se utilizam da força em uma manifestação política? Por que não optaram em redirecionar o trânsito e assegurar a manifestação? Por que inibir a manifestação?
Meus queridos, não achem que apenas discutindo no elevador, no cafezinho, ao telefone, a corrupção irá acabar. Percebemos que o Arruda está se utilizando de toda a máquina pública, mesmo após os escândalos, a seu favor.
Ontem, muitas Administrações Regionais bancaram a ida de apoiadores à Câmara Legislativa. Hoje, todo o aparato policial contra um grupo de cidadãos. Ao mesmo tempo, os parlamentares corruptos abafam os pedidos de impeachment. O DEM, prefere aguardar. E vocês, vão aguardar o Natal para terem o que conversar na ceia: "Poxa! Você viu? E o Arruda, hein? Nada aconteceu de novo! Esse país! Não tem jeito mesmo!"
Não se esqueçam que um país é feito de pessoas, é construído na base das atitudes individuais e coletivas. Não aguardem apenas o momento das eleições para agir politicamente. A política é muito mais que isso: é o exercício diário em relação à tudo que é comum à sociedade!
Por isso, peço, mais uma vez. Na verdade, imploro: se manifestem! Coloquem um adesivo no carro, uma blusa, uma faixa na janela, saiam de branco amanhã, acompanhem não apenas pela mídia o que está acontecendo. Nenhuma dessas atitudes nos tirará da rotina e nem demandará tempo. Contudo, demonstrará que não somos um povo apático politicamente".

domingo, 29 de novembro de 2009

UNE é suspeita de ter fraudado convênios com Ministério da Cultura


Pelo menos nove acordos firmados com a entidade, no valor de R$ 2,9 milhões, estariam em situação irregular


Aliada do governo, a União Nacional dos Estudantes (UNE) fraudou convênios, forjou orçamentos e não prestou contas de recursos públicos recebidos nos últimos dois anos. A entidade chegou a apresentar documentos de uma empresa de segurança fantasma, com sede na Bahia, para conseguir aprovar um patrocínio para o encontro nacional em Brasília. Dados do Ministério da Cultura revelam que pelo menos nove convênios celebrados com a UNE, totalizando R$ 2,9 milhões, estão em situação irregular - a organização estudantil toma dinheiro público, mas não diz nem quanto gastou nem como gastou.


O Estado analisou dois convênios com prazo de prestação de contas expirado no ministério: o Congresso Nacional da UNE, realizado em julho, em Brasília, e o projeto Sempre Jovem e Sexagenária, celebrado em 2008, que tinha como meta produzir - até 4 de junho - 10 mil livros e um documentário sobre a história estudantil secundarista. O presidente da entidade, Augusto Chagas, de 27 anos, promete devolver o dinheiro, se forem comprovadas irregularidades.


Apesar de o governo ter repassado R$ 826 mil para os projetos, a entidade, mesmo cobrada, não entrega extratos bancários e notas fiscais, nem cumpre a "execução dos objetivos", os livros e o documentário. Sobre os livros, uma cláusula do contrato diz que a UNE teria 60 dias para prestar contas, a partir de junho, ou restituir em 30 dias as verbas não usadas. Não fez nem uma coisa nem outra.


EMPRESA FANTASMA


A UNE forjou orçamentos para obter dinheiro para o encontro em Brasília. Em 16 de julho, o ministério liberou R$ 342 mil para o evento, que teve a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). A entidade apresentou estimativa de gasto de R$ 70 mil com hospedagem, R$ 29 mil para segurança, R$ 26 mil em passagens aéreas, entre outros. O ministério cobrou três orçamentos.


Para explicar a despesa com segurança, a UNE entregou o orçamento de empresa fantasma, com sede em Salvador, a 1.400 quilômetros do evento. O outro orçamento também é de uma empresa baiana, que ocupa uma sala de 30 metros quadrados e não tem funcionários.


A empresa fantasma é a Patorg Segurança. Os documentos entregues pela UNE ao governo mostram que a empresa declarou à Receita Federal como endereço o sexto andar de um prédio na Avenida Estados Unidos, em Salvador. A reportagem esteve ali na quinta-feira. No local não há empresa de segurança. Os vizinhos desconhecem a Patorg. "Eu trabalho aqui há 19 anos e nunca teve esse tipo de empresa", disse o porteiro Valdir Alexandre dos Santos.A UNE anexou um orçamento de R$ 36,4 mil da Patorg. Seu dono, Genovaldo Costa, é desconhecido no endereço, vive em Camaçari e não foi localizado.


A outra empresa, a MG Serviços de Limpeza e Portaria, ocupa uma sala num pequeno sobrado na Baixa dos Sapateiros. A UNE entregou um orçamento de R$ 32,2 mil da empresa, que não tem funcionário registrado, mas fez uma proposta de 280 seguranças, por R$ 115 a diária. O Estado foi três vezes ao endereço, mas não havia ninguém. Pelo celular, o dono, Marcos Guimarães dos Santos, disse que já prestou serviços à UNE, mas não deu detalhes.


Como a entidade não entrega a sua prestação de contas, ainda é um mistério a relação de quem foi contratado. Sabe-se, porém, que a UNE usou fantasmas para aprovar o convênio.


Os R$ 435 mil do Sempre Jovem e Sexagenária foram liberados em 5 de junho de 2008. A UNE apresentou orçamento de R$ 90 mil com pesquisa, R$ 50 mil para alimentação e hospedagem, e R$ 35 mil para imprimir o livro. O governo enviou ofício em 18 de junho passado lembrando que o convênio está encerrado e cobrou informações. Cinco meses depois, a UNE não deu satisfação.


sábado, 31 de outubro de 2009

Abusar do abuso - Parte II


Conheço Henrique Barbosa, que não é membro da Aliança pela Liberdade, há alguns semestres. Em muito pouco temos convergências de idéias. Mas eu não poderia concordar mais com seus argumentos sobre a invasão promovida por alguns alunos de Serviço Social. Por isso publico, mesmo que tardiamente, essa excelente carta:


Caros Estudantes de Serviço Social da UnB,Meu nome é Henrique Barbosa e sou estudante de Relações Internacionais da UnB, porém neste email não falo pelo meu curso (esse é o papel do CA, e não meu), mas por mim.Eu li a nota aberta à universidade que vocês publicaram e gostaria de, civilizadamente, dizer algumas sobre ela.

A primeira coisa é algo que se nota já no segundo parágrafo da carta: Um belo argumentum ad hominem como justificação primeira e geral. Vocês dizem que o argumento daqueles que são contra a ocupação não são válidos porque "reproduzem um pensamento que serve aos interesses de um determinado setor acadêmico que...". Ora, isso é claramente falso. Vocês, primeiro de tudo, estão fazendo uma generalização falsa, porque EU sou ferrenhamente contra a "ocupação" de vocês e comi no RU quase todos os dias nos últimos dois anos, além de utilizar as mesmas salas que vocês usam. Talvez as salas da FA sejam melhores, mas eu sempre faço matérias que são de algum modo desconexas com REL (e.g. cálculo II, etc), e essas matérias todas são em salas do ICC ou do PJC. Sou exatamente tão estudante da UnB e presencio as dificuldades da nossa universidade o tanto quanto vocês. Mas esse não é o ponto - o ponto é que vocês se utilizaram da identidade de um argumentante ("não-usuário do RU") como base para dizer que o argumento dele é falso. Ora, isso é objetivamente falso. Um argumento só pode ser avaliado de acordo com os seus próprios méritos, e não pelo fato de quem o criou ser branco, amarelo, usuário do RU ou não.¹


Segundo ponto: o argumento de que a "ocupação" foi "democrática" porque foi decidida através de "duas assembleias gerais dos estudantes de Serviço Social com direito a defesa da não-ocupação". Eu fico intrigado com a definição de "democracia" dos integrantes do CASESO. Por acaso aqueles que precisam da sala estavam nessa assembleia? Por acaso os estudantes da UnB como um todo participaram dessa decisão? A resposta é não, e, garantindo uma cláusula de mutatis mutandis, poderia afirmar que a "ocupação" da sala por parte do CA de vocês foi exatamente tão democrática quanto a Guerra do Iraque. Pasmados? Não fiquem - a Guerra do Iraque foi uma decisão democrática, legitimada por uma decisão do Senado dos Estados Unidos da América - com direito a defesa da não-guerra, por 77 a 24.² Agora, se vocês não concordam com a frase que acabei de pronunciar, também deveriam repensar os próprios métodos. Aliás, permito-me ir ainda mais longe na comparação. Mesmo com comoção geral da comunidade internacional, os Estados Unidos não abdicaram da sua guerra, fazendo uso de argumentos como "levar a democracia para o oriente médio" para legitimar a sua guerra. Pasmados? Não fiquem! O uso da "vontade geral" como meio de legitimação de autoritarismos é algo que já vem de muito tempo e que tristemente se repete vez após vez. (Por sinal, a título de curiosidade, gostaria de reproduzir aqui a frase de George W. Bush quando soube que o Senado teria aprovado a guerra: “America speaks with one voice”. Semelhanças?)


O terceiro ponto também me deixa intrigado e, na verdade, chega quase às portas do cômico. Segundo vocês, "nosso antigo CA já não comportava o número total de estudantes do curso há anos" (grifo meu). Eu me pergunto que tamanho um CA deveria ter para comportar o número total de estudantes de qualquer curso. REL tem mais ou menos 320 estudantes então o nosso CA deveria ser do tamanho do PJC? Creio que não, e espero sinceramente que vocês creiam que não também. Acredito na inteligência de vocês e acredito que isso tenha sido uma falha da pessoa que redigiu a carta. Porém algo se faz necessário dizer: um CA não é, e nunca foi, uma estrutura para abrigar um grande número de pessoas. Ele tem sim a função de socialização e de mobilização política. Mas qualquer pessoa inteligente consegue perceber que a grande arma de um CA para a mobilização política não é uma “sala”, mas sim a pessoa jurídica Centro Acadêmico que tem voz nos espaços de decisão da universidade e também o carisma dos seus líderes no sentido de incentivar os estudantes a não serem tão passivos . Mas o mais engraçado nesse ponto não é o que eu acabei de citar, mas o argumento de que vocês não estão prejudicando ninguém porque já “enviaram um ofício (...) solicitando a realocação da aula de libras”. Caros, sou só eu que vejo o cômico nessa passagem? Porque “mandar um ofício” pedindo para que a estrutura burocrática da universidade realoque um equipamento que estava sendo instalado exatamente naquela sala há anos quando muito mais fácil, justo e democrático seria simplesmente reconhecer o erro e ir ocupar a sala exatamente ao lado? Existem centenas de salas no ICC. Justo essa, colegas?


Aliás, isso me leva ao meu quarto ponto – Será que a ação solipsista, atrapalhada e impensada e, sim, autoritária (como já deixei claro o porque) ajuda o movimento geral dos estudantes da UnB contra uma expansão... solipsista, atrapalhada e impensada (e, segundo vocês, autoritária)? A resposta que me vem facilmente à cabeça, caros, é não. O “movimento” de vocês possivelmente trouxe muito mais obstáculos do que apoio no sentido de um movimento geral dos alunos da UnB. É fácil perceber repúdio à ação de vocês em qualquer lugar na nossa universidade. E isso gera desagregação, sectarismo e, principalmente, repúdio ao movimento estudantil. Aquelas mesmas pessoas que vocês citaram no argumentum ad hominem de vocês (os “não-usuários do RU”) tendem a ser os que mais têm preconceito contra o movimento estudantil, por causa de um histórico de ações igualmente descuidadas e representativas apenas de uma parcela esquerdista-radical da universidade. Queiram vocês ou não, esses estudantes também fazem parte da UnB, provavelmente são maioria (é só ver os números de participação nas eleições) e, vejam só, são esses os corações e mentes que deveríamos estar ganhando para a causa do movimento estudantil. Porque nem o CASESO sozinho, nem o CAREL sozinho, nem ninguém sozinho conseguirá nada nessa universidade. O único meio de conseguir mudanças efetivas por parte dos órgãos decisores e da reitoria é através de uma participação ativa dos estudantes como um todo e principalmente uma ação conjunta de todos os CAs. Só assim, caros, conseguiremos fazer alguma oposição efetiva à expansão descuidada. E é isso que vocês estão destruindo. É hoje reduzido, e isso é uma conquista histórica, o número de pessoas que consegue encontrar argumentos bons para justificar que se dificulte às pessoas que têm alguma deficiência o desenvolvimento total de suas capacidades, mesmo que talvez limitadas por algum motivo exógeno.

Meu argumento chega agora a um ponto talvez inesperado – sim, eu concordo com vocês! Eu concordo que a expansão do REUNI está trazendo malefícios para a universidade! Eu estava lá na assembleia da FA contra o dobramento de vagas no curso de direito! Porém tenho plena ciência de que não é dando murro em ponta de faca que vamos resolver um problema tão intrincado e complexo. Como eu já disse, e repito, os estudantes como um todo só conseguirão fazer frente a esse desafio com união, e não fazendo as coisas impensadamente.


No próximo ponto vocês voltam ao argumento do autoritarismo: de que os estudantes de Libras saíram prejudicados, sim, mas que isso é compreensível e justificável por causa do “contexto de lutas”. Aliás, o contexto de lutas não poderia se dar em outra sala porque, segundo vocês, é longe do departamento. Longe quanto, caros? Cem metros? Cento e cinqüenta metros? E a que distância ficaria “a nova sala” para os estudantes de libras? Isso tanto faz, não é? Porque vocês fazem parte do “contexto de lutas”, e eles não, são apenas alunos? E, caros, eu tremo nas bases quando ouço argumentos como o que vocês colocaram agora. Porque a supressão de liberdades e direitos individuais em nome “de algo maior” foi o que motivou algumas das maiores atrocidades da história humana. Basta pensar superficialmente para lembrar algumas: Stálin. Pol Pot. Emílio Garrastazu Médici. E, para finalizar, contradizem-se: logo após terem dito de que não poderiam ocupar algumas das muitas salas vazias no ICC porque ficam “a uma distância considerável”, culpam os outros pelo fato de vocês estarem impedindo o acesso de alunos especiais à sala de aula. Não, caros, a culpa não é dos outros de vocês estarem especificamente nessa sala. A culpa é exclusivamente de vocês, que tanto decidiram que não queriam apoiar o movimento de vocês em uma sala “longe” do departamento, quanto que não podem sair de lá agora, mas que podem mandar um “ofício pedindo para que o ponto de vídeo seja realocado para outra sala”, independente de que sala seria essa. E também tentam colocar a atenção no outro quando dizem que o fato de a reitoria não querer “realocar” o ponto de vídeo não é porque é muito mais razoável que vocês saiam para a sala ao lado, mas por causa de um perseguicionismo maniqueísta que demoniza a reitoria e o governo e heroiciza o “movimento estudantil a serviço dos interesses da sociedade (vocês consultaram a sociedade para poderem saber que interesses eram esses ou apenas generalizaram para um todo a opinião de vocês?) autônoma e democrática (?)”



Então, colegas, concluo a minha opinião reforçando de que não estou interessado em “guerra contra o CASESO” ou nada que se assemelhe a isso. Apenas quero expor a opinião de um estudante preocupado da UnB, independente e pensante, sobre alguns dos acontecimentos que afligem a nossa universidade.


Atenciosamente,Henrique Fialho Barbosa

1) Walton, Douglas (1998): Ad Hominem Arguments. Tuscaloosa: University of Alabama Press.2) CNN.com/Inside Politics (2002-10-11). - http://archives.cnn.com/2002/ALLPOLITICS/10/11/iraq.us/. Acessado em 2 de outubro de 2009.

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