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domingo, 5 de agosto de 2012

Carta aos Reitoráveis



Prezados reitoráveis,

Há quatro anos, como hoje, nossa Universidade estava em processo de escolha do seu novo Reitor; após período de grave crise institucional, quando diversas irregularidades da gestão Timothy Mulholland se tornaram públicas. Em 2008 o escolhido para ser o nosso dirigente máximo foi o professor José Geraldo de Sousa Júnior. 

Naquela oportunidade esta Aliança pela Liberdade ainda não existia. Foi em 2009 que a Aliança deu os seus primeiros passos, movida pela certeza de seus fundadores de que era necessária uma Universidade excelente, plural e meritocrática, pois só assim superaríamos o esfacelamento institucional que abatia a Universidade de Brasília naqueles tempos.

Desde então, temos participado das discussões fundamentais da nossa Universidade, as quais não foram poucas, tampouco fáceis. Entretanto, se há o bom combate, por que não tomar parte? Assim, passados 4 anos desde o último processo de escolha do Reitor da UnB, tornamos público à Universidade de Brasília aquilo que esperamos do nosso próximo Reitor ou Reitora:

* Assistência estudantil de qualidade, auxiliando o estudante social e economicamente vulnerável. O quadro discente das universidade brasileiras é formado principalmente pelas classes abastadas, resultado da desigualdade de renda do nosso país. Necessário, portanto, amparar os estudantes em vulnerabilidade socioeconômica para  permanecerem no ensino superior público, o que tende a diminuir a evasão e proporciona oportunidade de ascensão social àqueles que jamais poderiam fazê-lo senão por meio da educação.

* É essencial uma UnB que não seja vítima da violência e não banalize a constante agressão ao nosso patrimônio e à nossa dignidade. Não somos intocáveis e devemos nos sujeitar aos mesmos direitos e deveres da sociedade que nos custeia. A presença de um Batalhão Universitário, juntamente com uma política de segurança interna, em todos os campi, é fundamental para permitir um ambiente seguro ao desempenho de nossas atividades cotidianas dentro da Universidade. Entendemos que a ausência de ambos é um convite ao crime.

* A universidade deve investir na inclusão de pessoas com necessidades especiais com espaços acessíveis para todos, combate ao preconceito e incentivo da gentileza. E deve servir de exemplo para a sociedade. Por desleixo, há detalhes deixados de lado, o que prejudica o desempenho destes estudantes, tirando lhes a igualdade de condições.

* Deve-se evitar ao máximo a interrupção parcial ou total de atividades acadêmicas por fatores técnicos ou naturais com ações preventivas de manutenção e planejamento a longo prazo. Além disso, deve-se procurar acordos e estudos com as autoridades competentes para melhorar o transporte público dentro dos campi.

* Os campi devem conscientizar seus alunos a respeito do consumo de energia elétrica, água, papel e outros recursos. É preciso procurar mais eficiência em todos os espaços da universidade, pois gasta-se dinheiro devido ao desperdício, que é inadmissível quando consideram-se tecnologias existentes para reduzí-lo.

* É essencial uma administração que busque todas as formas de financiamento para pesquisas, ensino e projetos de extensão, sem depender exclusivamente dos recursos da União, com uma política de captação de recursos moderna e transparente.  A nossa Universidade possui tradição e estrutura institucional para tanto. Uma instituição que não busca formas alternativas de captação de recursos escolhe o fracasso e não a produção de ponta.

* A gestão deve ser compartilhada, mas isso não é justificativa para a omissão institucional. Em outras palavras, o reitor continua a ser o reitor. Instituições são movidas por regras e padrões de convivência. Caso contrário, prepondera o autoritarismo em vez do pleno exercício das competências de cada membro da comunidade acadêmica.

* A Universidade de Brasília necessita de um Parque Cientifico e Tecnológico (PCTec) e a omissão é mutilar a instituição e podar o futuro de muitos, especialmente os mais pobres. Omitir-se nesse projeto implica em deixar de contribuir para o desenvolvimento econômico e social tanto do DF como do país. A Universidade é o ambiente mais apropriado para a inovação tecnológica, ao lado da pesquisa e dos mais renomados doutores presentes em nosso quadro. Portanto, não devemos desperdiçar o enorme potencial dessa iniciativa a favor de nossa comunidade e da sociedade brasileira. 

* A UnB precisa de mais gestão e menos discurso somado a inapetência administrativa. Uma instituição de nível internacional se faz com ação, com uma política de longo prazo que valorize a excelência acadêmica e a pluralidade de ideias e não com a eloqüência de discursos vazios, que apenas escondem ineficiência administrativa trajada de vanguarda.

* Maior investimento em pesquisa e facilidade em enquadrar novos docentes nos programas de pós-graduação, tornando a UnB um pólo de atração dos melhores cérebros do país, tal como fazem USP e UNICAMP. Do tripé que forma a base acadêmica de uma universidade deve-se conceder atenção especial à pesquisa de ponta e qualificada, devido aos efeitos positivos no quadro docente, no ensino e na extensão. É necessário, pois, que a universidade se torne pólo de atração aos novos professores do país, além de lhes proporcionar condições necessárias à pesquisa e a participação nos melhores programas de pós-graduação do Brasil.

* É essencial uma Administração que faça os Conselhos Superiores não só funcionarem, mas funcionarem adequadamente, ou seja, não sejam uma reunião para longos e inúteis discursos. Com uma leitura rápida das normas da UnB, podemos entender a relevância dos Conselhos. A boa atuação deles é o que de fato decidirá os caminhos e o sucesso de nossa Universidade. Conselhos que funcionem de forma produtiva e responsável podem e devem servir como freio para gestões parasitárias, partidárias e ineficazes. E, por outro lado, devem servir como inspiração para que a Administração Superior da UnB irrigue suas políticas e realizações com o anseio crítico da comunidade.

* É essencial uma Administração que promova maior sinergia entre os campi da UnB e com a sociedade, procurando valorizar e promover os estudantes dos novos campi. Nós estamos em uma Universidade multicampi, que deve estar inteira em todos eles. É uma realidade que não pode esperar tanto! Os outros campi não devem depender do Darcy Ribeiro, seja para RU, BCE ou assuntos burocráticos. Não é razoável existir dificuldades à integração entre os Campi. Além disso, a  mobilidade acadêmica e física deve ser garantida.

* A UnB precisa ter uma política de internacionalização mais abrangente e eficiente. Nenhuma Universidade que almeje estar entre as melhores pode se abster de realizar todos os esforços possíveis para se inserir no ambiente internacional. A pesquisa talvez seja uma das atividades humanas mais internacionalizadas da atualidade e não poderia ser diferente, à medida que esta é a atividade que concentra os maiores especialistas do mundo em torno de um dado tema. Uma Universidade que produz pesquisa de excelência e ensina com excelência, estende-se sobre a sociedade também com excelência. 

* A Universidade precisa de uma Secretaria de Comunicação cuja direção seja nomeada pelo Conselho Superior (CONSUNI) e não mais pela Reitoria. Não podemos mais conviver com o uso político da Secretaria de Comunicação da Universidade, que, em vez de servir a comunidade, corre o risco de servir como meio de propaganda das pautas e pontos de vistas da Reitoria.

* A UnB precisa ser pioneira na realização de pesquisas de avaliação com egressos. Uma Universidade só alcançará excelência se conseguir formar egressos que aproveitem ao máximo sua formação acadêmica na vida profissional. Daí a necessidade da Universidade acompanhar como o estudante que saiu recentemente de seus bancos avalia a formação recebida. Sem esse tipo de informação, será impossível aperfeiçoar os cursos e corrigir eventuais falhas para os que ainda estão na graduação.

* Uma instituição aparelhada é um Partido Político e não uma Universidade. Uma instituição que se permita influenciar por pautas partidárias atenta contra si mesma, no sentido de que se expõe ao risco real de abrir mão de seu livre pensamento. 

*A administração não pode tolerar autoritarismo de nenhuma ordem. Que tenhamos orgulho da UnB, que a Universidade seja  referência de qualidade acadêmica e de liberdade de cátedra, que possamos nos sentir livres e como parte da comunidade, que a UnB seja uma Universidade libertadora e indispensável para Brasília e para o Brasil.

Estimados votos de sucesso,
Associação Discente Aliança pela Liberdade.

Reafirmando o compromisso com aqueles que representamos e com toda Universidade de Brasília, este documento foi entregue a todos os postulantes à Reitoria da nossa Universidade.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

APARTIDARISMO E IDEOLOGIA:

Réplica da Aliança pela Liberdade
Ainda que discordemos de alguns pontos do texto “Apartidarismo e Ideologia”, assinado pelo estudante Guilherme Riscalli (graduando em Filosofia pela USP), não podemos negar que o texto é bem escrito e que suas críticas são bem fundamentadas. Como o texto faz menção a quatro grupos estudantis de quatro universidades (UFRGS, UnB, UFMG e USP) e o trata em bloco, essa réplica se restringe apenas aos pontos em que a caracterização geral não se aplica a Aliança pela Liberdade.

Se compreendemos bem, a tese central do texto é que “esses grupos emergentes” não se enxergam como parte de uma “diversidade política” e negam a existência “de uma partição específica num coletivo social”. O texto possui ainda outras teses secundárias, das quais destaco: (1) a negação da ligação “óbvia” desses grupos com os partidos conservadores (PSDB, DEM e PP) e (2) esses grupos escondem suas intenções e fazem da política uma questão meramente técnica (quer dizer, de eficiência).

Para nós da Aliança pela Liberdade sempre esteve claro que atuamos dentro de uma arena política (a arena universitária), cujo público (os estudantes) não é homogêneo. Ora, como poderíamos achar que somos os únicos a representar a totalidade dos estudantes, se vencemos uma eleição disputada por oito chapas, onde obtivemos menos de 30% dos votos?

O corpo discente apresenta uma enorme pluralidade de opiniões, de interesses, de prioridades e de valores; entretanto, mesmo entre os grupos mais diversos, acreditamos que é possível sim encontrar elementos em comum pelo qual todos podem trabalhar. Não temos a pretensão de ser a única voz dos estudantes e dois gestos da atual gestão exemplificam o que digo. Em pouco mais de um mês de gestão, o Conselho de Entidades de Base (órgão deliberativo com representação dos CAs) foi convocado 4 vezes, uma freqüência muito maior do que se viu nas últimas gestões. Outro gesto foi a indicação dos componentes do Orçamento Participativo, que em 2012 irá gerir 10% dos recursos destinados a Assistência estudantil. Ao DCE cabia indicar todas as cadeiras, mas por iniciativa própria a diretoria destinou 3 cadeiras para cada um dos novos campi da UnB — nos quais chapas oposicionistas venceram; 7 vagas foram indicadas pelo Conselho de Entidade de Base (CEB). Muitos dos eleitos fazem oposição a atual gestão, alguns deles oriundos de chapas concorrentes, ficando o DCE apenas com duas dessas cadeiras.

Se quiséssemos exercer o poder sozinhos, por que convocar tanto os órgãos onde a oposição pode exercer o poder? Por que dividir cadeiras com pessoas que não são da gestão e que nos fazem oposição? O que mais queremos é que a política estudantil reflita a pluralidade existente no corpo discente e para isso é fundamental revitalizar os espaços de deliberação. Preferimos prejudicar a nossa agenda e nossas propostas, se esse for o preço a ser pago pela revitalização do ME. (Como mostrei, as eleições anuais para DCE e RDs, momento de maior mobilização estudantil, 82% dos estudantes preferiram não votar, sendo que em 2009 esse número era ainda maior).

Sobre a ligação “óbvia” com os “partidos conservadores”, quais sejam, PSDB, DEM e PP. A atual gestão, no ato da posse, apresentou certidões emitidas pelo TSE que comprovam a não filiação dos seus membros. A Aliança pela Liberdade não proíbe o ingresso de filiados a partidos políticos (como se costuma repetir). O filiado pode ingressar no grupo, mas não pode assumir cargos no DCE, não pode ser representante discente, nem assumir cargos internos na Aliança. Mentir sobre filiação partidária, ou não atualizar informações, é punido com expulsão do grupo, pois consideramos que honestidade, antes de ser uma qualidade, é um pré-requisito para quem faz política. Se o filiado quiser cooptar o grupo no interesse de seu partido e usar o ME como trampolim político, sua vida será dificultada pelas normas internas: isso deve explicar por que filiados não nos procuram.
Cabe ao autor o ônus de provar a ligação com da Aliança com aqueles ou com quaisquer outros partidos políticos. Se o autor achar ligações dos demais coletivos com os partidos, isso nada prova a nosso respeito. A escolha de tratar esses movimentos como um bloco é do autor, mas isso não exime de provar as afirmações gerais para cada uma das partes.

“Sua pretensão é a de superar as disputas políticas e aparecer como chapa branca, neutra”. Não somos chapa branca, ou neutra, nem a representação de todos, simplesmente porque não acreditamos em nada disso. A política universitária se caracteriza por uma infinidade de questões (tais como segurança, assistência estudantil, regras de convivência, financiamento de pesquisas, infra-estrutura entre inúmeras outras) e em todas elas os estudantes se dividem. As diferenças são tanto de prioridades (ou seja, dos fins últimos das políticas) como diferenças técnicas (ou seja, divergências quanto ao resultado esperado de uma dada política).

Não negamos o jogo político e participamos dele, do mesmo modo que o fazem as chapas ligadas ao PT, ao PC do B, PSB, PSTU, PSOL, PCO, ou os coletivos anarquistas. Dizer que somos “invólucros sem vontade, a serem preenchidos, sem atrito, sem resistência, pelo rosto desse mítico ‘todos” é ignorar nossa história, nossa atuação. Recomendo a leitura do texto “Prestação de contas a comunidade acadêmica”, onde sintetizamos um ano de atuação do grupo. Foram mais de 60 textos, onde nos posicionamos sobre os mais diversos temas da política estudantil.

Em suma, compartilhamos com Guilherme Riscalli os mesmos valores e as mesmas referências. Apenas não achamos que a crítica se aplique ao grupo estudantil Aliança pela Liberdade. A representação do todo e a pacificação da política foram levadas a cabo, ao longo do século XX, por regimes de direita e esquerda, que suprimiram liberdades civis e políticas, instituíram o unipartidarismo e calaram as vozes dissonantes. Caro Riscalli, tanto nossos princípios como nossas práticas se opõem a essa “pacificação da política” e nós repudiamos tanto ideias como regimes que sirvam a essa distopia.

Saulo Maia Said
Membro da Aliança pela Liberdade desde 2009
Graduado em História pela UnB e mestrando em Ciência Política pelo IESP-UERJ (antigo IUPERJ)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A primeira estação do caminho de mudanças: o novo site do DCE

*Por André Maia

Há praticamente um mês a Gestão Aliança pela Liberdade assumiu o DCE/UnB. Inúmeras reuniões têm sido realizadas, projetos elaborados e tocados. De diferentes formas as/os estudantes da UnB têm percebido a evolução qualitativa de sua representação. Contudo, se há algo radicalmente perceptível, é a mudança no site do DCE/UnB. O novo site é a cara da nova gestão: modernidade, eficiência, pluralismo, transparência, clareza e trabalho. Especialmente, muito trabalho.

Modernidade: o site atual é incomparavelmente melhor em relação ao site anterior. Mantido há anos como uma carroça, um objeto de museu, o antigo site tinha aparência e funcionalidade piores do que qualquer blog de amador (como este próprio que você lê agora). O site novo é uma ferramenta bonita e convidativa, que interage com o visitante, sendo a cara de uma universidade de empreendedorismo e inovação. Ele está completamente integrado às ferramentas sociais (Facebook, Twitter e Google+) da chamada web 2.0 e se baseia amplamente em conteúdo gerado pelos próprios usuários - no caso, os estudantes.

Eficiência: o novo site dispõem informações de maneira organizada e útil. A página virtual atinge sua finalidade ao trazer informações de qualidade e interesse das/dos estudantes. A aluna de nossa univesidade sabe que encontrará informações atualizadas e úteis na página de seu diretório. O aluno da UnB sabe que ao entrar na página do DCE não encontrará apenas informações de assuntos externos ao seu cotidiano universitário.

Pluralismo: em sua seção de eventos e grupos, a página do DCE demonstra ser, de fato, de todas e todos os estudantes. O site apenas começou e já percebmos uma participação crescentes de pessoas querendo divulgar seus eventos estudantis, sendo eles dos mais diversos temas e interesses. Assim se organiza o site de uma gestão que pretende representar e não dirigir seus pares.

Transparência: ao contrário de gestões anteriores, a atual Gestão fala e faz! Nas gestões anteriores, era um suplício o simples cumprimento do Estatuto do próprio DCE. Infelizmente as contas raramente eram disponibilizadas no site. Contas de DINHEIRO PÚBLICO. A Gestão atual, por crer que o que é público é de todos, acredita que TODOS devem ter acesso simplificado e periódico às contas da gestão. Existe forma mais eficaz do que nosso site para fazê-lo?

Clareza: o site anterior, além de ser praticamente inútil, era também confuso. As informações estavam dispostas de modo desorganizado, além de ter conteúdo duvidoso, visto que os mais diversos assuntos misturavam-se sem muita explicação. O site atual permite que o visitante encontre de modo claro e rápido as informações que foi buscar.

Trabalho: não, não acredito que tenha sido fácil criar um site eficiente e moderno. Alimentá-lo permanentemente deve ser ainda mais trabalhoso, tanto por razões de forma quanto de conteúdo. Ele é o resultado evidente de quem tem compromisso com sua universidade e emprega seu tempo e esforços em benefício da coisa pública. Esses são os fatos a respeito de um grupo que foi acusado de ser egoísta, apolítico e desmobilizado. Contra a mentira e os falsos discursos a nova Gestão apresenta fatos, trabalho, esforço.

O site do novo DCE é um site de verdade, de uma Gestão de verdade, que representa estudantes de verdade. Convido o leitor a comparar a versão antiga e a nova e chegar às suas próprias conclusões.

*André Maia é bacharel em Relações Internacionais e estudante de Direito pela Universidade de Brasília. É membro fundador e Presidente de Honra da Aliança pela Liberdade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Junto à Estátua - Luís da Gama

A Aliança pela Liberdade é grupo essencialmente preocupado com política, um grupo que busca melhorar a vida das pessoas. Mas se o objetivo de nossa política é a melhora da vida - e vida sem arte não vale a pena! - devemos também nos render, sempre que possível, aos encantos da poesia.

Por isso, uma homenagem à Semana da Consciência Negra vem na forma desse poema de Luís da Gama, nas Primeiras Provas Burlescas de Getulino (c. 1870). Ele: poeta, advogado e político brasileiro de pele negra, amigo de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, que 100 anos antes adiantava-se ao "Preconceito" de João Gilberto e declarava o amor como a primeira forma de rebeldia contra todos os tipos de preconceito.




JUNTO À ESTÁTUA
(No Jardim Botânico de São Paulo)

Em plácida manhã serena e pura,
Sentado à borda de espaçoso lago;
O corpo recostado em frio marmor,
Tórridos membros sobre a terra quedos,
Qual túmido Tritão de amor vencido,
Transpondo as serras, iracundos mares,
D’Aurora o berço perscrutando ousado,
Dolorosos suspiros exalava
Meu frágil peito da natura escravo.

Já nas fúlgidas portas do Oriente
Trajando púrpura majestoso assoma
Luzeiro ardente, que expandindo os raios,
Deslumbra os olhos, e a razão sucumbe;
E, com furtiva luz, pálidas fogem
Notívagas esferas cintilantes.
As brandas auras perfumadas vinham
De grato aroma que invejara Meca,
Nos tortos ramos assoprar de manso.

Em nuvens brancas lá do céu caía
Pranto saudoso que derrama a Aurora,
Que a terra orvalha, que floreia os prados.
Volátil bando de ligeiras aves,
Brandindo as asas pelo ar brincavam,
Modulando canções, ternas endechas

Longe do mundo, das escravas turbas,
Que o ouro compra de avarentos, Cresos
A minh’alma aos delírios se entregava,
A sombra de ilusões – de aéreos sonhos.

Formosa virgem de nevado colo,
De garços olhos, de cabelos louros;
Sanguíneos lábios, elegante porte,
Mimoso rosto de Ericina bela,
Curvando o seio de alabastro fino,
Mimosa imprime nos meus lábios negros
Gostoso beijo de volúpia ardente! –
Vencido de prazer, nadando em gozos,
Já temeroso pé movendo incerto,
Vôo com ela às regiões etéreas
Nas tênues asas de ternura infinda.

Rasgando o véu das ilusões mentidas,
Que est’alma frágil seduzir puderam,
Imóvel terra, cambiantes flores,
Viram meus olhos no romper da Aurora;
E dentre os braços, que cerrados tinha,
Gelada estátua de grosseiro mármore!...

***

Cândidas boninas,
E purpúreas rosas,
Violetas roxas
Do luar saudosas!

Verdejantes murtas,
Redolentes cravos,
Lindas papoulas
Da donzela escravos,

Ao soprar da brisa,
Em balanço undoso,
O mortal encantam
Num sonhar gostoso.

Mas fugindo as nuvens
– Que a ilusão fulgura,
Só vagueia à sombra
Da infernal ventura.

domingo, 20 de novembro de 2011

Semana da Consciência Negra

"Sem a emancipação dos atuais cativos nunca o Brasil firmará sua independência nacional e segurará e defenderá a sua liberal constituição. Sem liberdade individual não pode haver civilização, nem sólida riqueza; não pode haver moralidade e justiça, e sem estas filhas do céu, não há nem pode haver brio, força e poder entre as nações". Joaquim Nabuco, "O Abolicionista, 1863.

O movimento abolicionista brasileiro foi uma luta pela liberdade individual. Era uma luta que não exacerbava nossas diferenças, mas simplesmente aceitava-nas como ricas molas propulsoras de nosso futuro comum, enfatizando a necessidade de igualdade em dignidade em direitos de todos os brasileiros. Era, portanto, uma luta pela liberação do indivíduo para definir sua própria identidade e seu próprio destino.

A transformação essencial, nesse aspecto, é libertária. Anteriormente, quando do império da raciologia, existia uma segregação exógena, em que indivíduos eram segregados conforme suas características fenótipas sem qualquer pró-atividade das próprias pessoas na definição de seus rótulos. Sob a nova lógica impulsionada no Brasil do século XIX, a definição é identitária é endógena, o que implica expressão livre da própria identidade, traçando cada um, assim, seu próprio destino.

Nesta semana, celebramos o aniversário da morte de Zumbi dos Palmares - um dos Herois que tem seu nome gravado no Livro de Aço do Panteão da Pátria e da Liberdade - sob este espírito. A liberdade identitária abre as fronteiras para a apropriação da herança produzida pelos negros brasileiros por todos nós. A liberdade identitária transforma o espírito do segregacionismo exógeno em colaboração, respeito e tolerância. Como dizia Martin Luther King: "devemos aprender a viver juntos em fraternidade ou pereceremos, todos, como tolos". Com isso, esperamos que todos percebam que a história dos negros é a história do Brasil é uma história de luta pela liberdade. E é uma história de todos os brasileiros.

Visite o site do DCE Honestino Guimarães para saber mais: www.dceunb.org.

Blog da Liberdade